Três cestas e um velho homem...
Wesley Charles de Alencar Reis
Havia três cestas, uma do lado da outra que ficava apenas num lugar... A
do lado direito guardava os erros... A do esquerdo, as qualidades... Todavia a
que ficava entre as duas, a do meio, permanecia vazia...
Certo homem, um velho andarilho calejado pelas longas lutas traçadas nos
percursos das existências, era o guardião das cestas. A sua história não foi
fácil assim como a lauda da humanidade e a missão pegada no caminho de cada alma
vivente...
De pequeno, como todo menininho, gostava do faz-de-conta, de bolinha de
gude, de futebol... Pintava a sua imaginação de infinitas poesias, brincando;
brincando... Desenhava e se desenhava imaginando que todo seu sonho ia tornar-se
realidade no engenho da simplicidade...
Entretanto cresceu... Agora é um adolescente cheio de hormônio, sonhos e
idealizações... Jovem bonito, atraente e conquistador. Aproveitou bem essa fase
de brinde. Ele teve várias namoradas, mas com nenhuma se casou... Era farrista,
boêmio... Levava a vida extrovertidamente...
Já adulto, conquistou do bom e do melhor, fez fortuna; enriqueceu-se...
Tornou-se poderoso. Todavia o ser adulto não chegou com o empilhamento de grana,
aquela criança foi esquecida no canto; bem lá no canto! O adolescente permanece
ao seu modo...
Velho, cansado, resignado, começa a refletir...
Quando criança foi tudo bem, idade de ouro e de pura inocência; sem nada
de maldade para guardar e tudo de dádiva para brincar! Não precisou olhar as
cestas, até parecia que elas nem existiam...
Quando adolescente, olhou mais para a cesta das qualidades, desviando o
olhar da cesta dos erros. A do meio nem se quer observava, pois não tinha nada,
não refletia nada...
Todavia agora velho, diante de um grande dilema, o homem sente que cometeu
uma imensa falha... Ele sempre observava a cesta das qualidades, negando, a
cesta dos erros e ignorando a do meio.
Então ele percebeu que uma dependia da outra para a plenitude da reflexão,
dando sentido à vida. Entretanto o velho homem estava bem fraco, num estado
terminal, vendo que tudo que viveu era uma enganadora ilusão. Neste instante ele
viu que no fundo da cesta do meio havia uma criança adormecida, sonhando um
sonho lindo com um sorriso estampado no rosto...
O velho homem viveu mais um dia, sem mulher, sem filho; todavia naquele
- instante tudo fazia sentido...