Toda filosofia é poesia vinda da alma, além da razão na busca única do Amor Maior

sábado, 18 de junho de 2011

DU – VIDAS

DU – VIDAS
                                                                        
 
      Era uma vez... Parece um encontro de fadas.
      Neste momento estava no quarto ou no quintal com os meus livros na estante 
ou flutuando. Com as asas da borboleta. Com os grilos nas folhas secas. Com o 
colibri que sentimentaliza o ósculo na minha face menina (flores sensíveis).
      As coisas andam congestionadas aqui. Não resolvi a equação decimal de 
Deus, onde persistem as dúvidas...
      Na primeira lauda avistei uma pequena cidadela, modesta e simples, com 
número reduzido de gente, com as casas feitas de sonhos e fantasias, flutuantes. 
Tudo era diferente dos nossos olhos e das nossas indiferenças. Era uma cidadela.
      Neste instante, passo por uma porta, fecho a outra e me pego num enorme 
túnel com meia luz. A paisagem se reduz, deduz um estranho, mediante o olhar 
negro, vasto. Dou por mim na cidadela. Meu corpo, minha emoção pertencia à 
paisagem. Tudo e todos os sentimentos ligados.
      Ora!... Senti um mistério no ar. Algo deste que incomoda muita gente. A 
novidade era o vendedor de frutas naquele lugar diferente... A curiosidade 
aumenta, a fofoca torna-se notícia. Ninguém sabia daquele sujeito e nem do modo 
diferente de vender frutas.
      A tarde chegou num relâmpago, quando alguém se aproximou dele e comprou 
uma fruta. Comeu-a. Deliciou-se. Entrou naquela tenda e saiu... Depois disso, 
mais nada.
      No dia seguinte, logo pela manhã, ali passou mais um. À tarde, outro. À 
noite, fechou-se o expediente. Comeram-nas... Deliciaram-se... Entraram na 
cabana... Saíram...
      Deste modo, cada dia aquilo acontecia, até que quase todo mundo ali já 
tinha passado. Comeu-a... Deliciou-se... Entrou na cabana e saiu...
      Reparei tudo aquilo e mesmo assim não via nada de diferente. Uma voz batia 
lá no fundo. Comeu-a... Deliciou-se... Entrou na tenda... Saiu... Ainda não 
tinha passado ali. Cada vez mais a coisa era sem sabor. Era um ponto final 
inexplicável. Uma reticência colocada no caminho...
      Hoje li algo de diferente. Estava com meus olhos vendados. Ressenti-me ao 
tocar na duplicidade da vida. Faltava-me algo. Bebi um copo de água 
transparente. Naufraguei-me no oceano das lágrimas, em meu âmago feminino...
      Ali estava o vendedor. Apenas uma fruta no cesto e a cabana no mesmo 
lugar. Creio que aquela fruta era para mim, mas algo dizia que era para ele. 
 
      Estou naquela casa pacata, com insônia. Era a casa que não conseguia pegar 
no sono. Resolvi sair um pouco. Passei por alguns lugares. Uma força me puxa 
para aquele local, onde se encontrava o vendedor, o cesto com apenas uma fruta e 
com a cabana armada. Aproximei-me dele. Admirei-o... Antes de qualquer fala, ele 
pegou a fruta e me ofereceu, sensivelmente, sem voz... A atmosfera encheu-se de 
gestos divinos. Aceitei a oferta e o agrado. Logo em seguida: comi-a, 
deliciei-me, entrei na cabana e sai...
      O interessante foi... Quando estava ali, faltava um segundo para a meia 
noite. Bem lá nos confins do meu íntimo, um ser me fazia sentir que aquela era 
minha hora. Pude entender. A essência fluía naturalmente e uma voz se instalou 
em nosso silêncio. Pelo menos alguns segundos, alguns minutos, algumas horas 
alguém foi feliz, amou de verdade...
      A felicidade se fez apenas num único corpo, numa única emoção e se fez 
morada para esta paisagem.
      Era uma vez... Era um vendedor de frutas... Era um cesto... Era uma 
fruta... Era uma cabana...
Wesley Charles

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